SÃO FRANCISCO DE ASSIS E A TEOLOGIA DA CRIAÇÃO UM CONVITE À FRATERNIDADE E AO CUIDADO COM A CASA COMUM
“Tudo está interligado como se fôssemos um, tudo está interligado nesta casa comum.”
04.10.2025 - 04:22:00 | 9 minutos de leitura

Estas palavras refletem a espiritualidade de São Francisco de Assis, o chamado irmão universal, protetor dos animais e amigo da natureza. Sua vida nos lembra que a fé só é autêntica quando se traduz em cuidado concreto: pelos pobres, pelos pequenos, pelos animais e pela terra. Francisco nos ensina que o mundo não é um objeto a ser explorado, mas uma família a ser respeitada e amada, onde cada criatura tem valor intrínseco. O santo nos convida a perceber que a relação com a criação é também uma relação com Deus, que se revela e se manifesta em cada detalhe da vida.
“Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão sol, que ilumina o dia e nos dá luz. E ele é belo e radiante com grande esplendor; de Ti, Altíssimo, nos dá significação.”
O Cântico das Criaturas é a expressão máxima dessa visão. Nele, o sol é chamado de irmão, a lua de irmã, a água de irmã, o fogo de irmão. Cada ser participa do louvor divino, lembrando que toda a criação existe para glorificar o Criador. A própria Bíblia reforça essa percepção: toda a criação geme e sofre, aguardando ser libertada e restaurada (Rm 8,22). Deus se importa com o cotidiano da criação, com a terra, as águas, os animais e toda a vida, como vemos nos salmos, na sabedoria dos povos e nas mensagens dos profetas, que denunciam a destruição e a injustiça contra a criação (Sl 104; Gn 1-2; Is 24,4-6).
Ao falar de Teologia da Criação, refletimos sobre a obra total do Criador, da qual fazemos parte. A Ecoteologia nos lembra que cabe ao ser humano cultivar e guardar a criação (Gn 2,15). Cultivar é economia, guardar é ecologia; ambas têm a mesma raiz grega, oikós, que significa “casa”. Essa perspectiva nos ajuda a perceber que o cuidado ambiental é inseparável do cuidado social: proteger rios e florestas também significa proteger comunidades, povos originários e famílias que dependem diretamente desses recursos naturais.
A Ecoteologia contemporânea nos desafia a olhar para a criação com olhos de responsabilidade ética e espiritual, enfrentando problemas como o desmatamento, a contaminação de rios e solos, o aquecimento global, a perda da biodiversidade e os fenômenos climáticos extremos. Não se trata apenas de ciência ou de política ambiental, mas de fé viva, que reconhece a interdependência de toda a vida. A criação é expressão do amor de Deus e nos convoca à ação: “não podemos permanecer indiferentes frente à destruição do mundo que nos foi confiado.”
O Papa Francisco, inspirado em São Francisco, reforça essa perspectiva em Laudato Si’ (2015), convidando a uma conversão ecológica do coração e das atitudes. Ele nos lembra que a ecologia integral não é apenas preocupação ambiental, mas compromisso com a justiça, com a solidariedade e com a dignidade humana. Seguindo São Francisco, somos chamados a enxergar cada criatura como irmã ou irmão, reconhecendo que cuidar da natureza é cuidar da própria humanidade.
O Papa São João Paulo II, em sua visita ao Monte Alverne em 1993, onde São Francisco recebeu as chagas, o Papa São João Paulo II afirmou:
“São Francisco de Assis, o mundo tem saudades de ti!”
Essa declaração expressa a atualidade e a necessidade do exemplo de São Francisco no mundo contemporâneo.
Além disso, em 1999, o Papa proclamou São Francisco de Assis como "celeste padroeiro dos cultores da Ecologia", reconhecendo sua sensibilidade para com a natureza e sua visão espiritual que integra o cuidado com a criação como parte essencial da fé cristã.
O Papa Bento XVI, em uma audiência de 27 de janeiro de 2010, o Papa Bento XVI descreveu São Francisco como “um autêntico gigante da santidade”. Ele ressaltou que a simplicidade, a fé, o amor por Cristo e a bondade de São Francisco o tornaram feliz em todas as situações, destacando a relação íntima entre santidade e felicidade. O Papa afirmou:
“Olhando para o testemunho de São Francisco, compreendemos que é este o segredo da verdadeira felicidade: tornarmo-nos santos!”
Além disso, em 2007, durante uma celebração eucarística em Assis, Bento XVI enfatizou que São Francisco, após sua conversão, tornou-se uma testemunha fiel de Jesus, praticando o Evangelho de forma literal e associando-se de maneira singular ao mistério da Cruz.
Essas declarações refletem o reconhecimento papal da importância de São Francisco como modelo de santidade, compromisso com a criação e testemunho do Evangelho.
A espiritualidade franciscana nos ensina também que a simplicidade e a alegria são essenciais. Não se trata de resignação ou de temor do futuro, mas de um estilo de vida que valoriza o essencial e respeita os limites da criação. Em tempos de consumismo e degradação, Francisco nos mostra que a vida pode ser plena quando vivida em harmonia com todos os seres, lembrando que a verdadeira riqueza é a fraternidade e a comunhão com Deus e com a criação.
A Campanha da Fraternidade 2025, promovida pela CNBB, trouxe São Francisco como tema, enfatizando a espiritualidade da criação e a necessidade de cuidar da Casa Comum. A campanha não se limita ao aspecto ambiental, mas integra a reflexão sobre justiça social, ética e fé. É um convite à Igreja e à sociedade para assumirem responsabilidades concretas, desde políticas públicas que protejam rios e florestas até pequenas ações diárias que respeitem o equilíbrio ecológico. O grito da terra e o clamor dos pobres são inseparáveis: ignorar um significa ferir o outro.
No contexto brasileiro, a reflexão torna-se ainda mais urgente. A Amazônia, os rios, a biodiversidade e as culturas indígenas são exemplos vivos de riqueza e fragilidade. Cada gesto de proteção, cada política pública voltada para a justiça ambiental, cada ação comunitária é expressão da espiritualidade franciscana em prática. Seguindo Francisco, somos irmãos de todos os seres, e o cuidado com a criação é inseparável do cuidado com os pobres e marginalizados. O reconhecimento de que cada ser vivo possui dignidade e valor intrínseco nos leva a repensar hábitos, prioridades e modos de consumo.
A música também nos ajuda a contemplar essa integração de fé e criação. Na canção “Irmão Sol com Irmã Luz”, de Padre Zezinho, encontramos a mesma reverência franciscana:
“Irmão Sol com irmã luz, trazendo o dia pela mão. Irmão céu de intenso azul, a invadir o coração. Irmãos, minhas irmãs, vamos cantar nesta manhã, Pois renasceu mais uma vez a criação das mãos de Deus…”
Cada verso nos convida a perceber a beleza da criação, a presença de Deus em cada criatura e a responsabilidade que temos para com a vida. É uma lembrança poética de que toda ação humana, mesmo a menor, tem impacto sobre o mundo e sobre os outros.
Santos como Santa Clara, São Boaventura e missionários inspirados por Francisco reforçam a ideia de que a fé só se realiza plenamente quando se traduz em cuidado concreto e fraternidade universal. A Teologia da Criação nos ensina que cada ato de proteção ambiental ou social é participação na obra divina. Negligenciar a criação é ferir a própria humanidade, e cuidar dela é celebrar a vida em sua plenitude.
A prática franciscana se revela também na solidariedade e na simplicidade. A vida de Francisco demonstra que a alegria está em viver com atenção e amor às pequenas coisas: o canto de um pássaro, o fluxo de um rio, o trabalho do agricultor, a vida em comunidade. Cada gesto de cuidado é sagrado, e cada criatura é digna de respeito e proteção. Essa espiritualidade nos chama a repensar o ritmo da vida moderna, a valorizar o essencial e a assumir responsabilidade por nosso planeta.
Encerramos com a Oração de São Francisco, que resume seu chamado à paz, ao cuidado e à fraternidade:
“Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver trevas, que eu leve a luz.”
São Francisco nos ensina que ser humano é ser irmão — de Deus, dos homens, dos animais, da terra e do universo. Seguindo seu exemplo, a Igreja e cada cristão são convidados a viver uma fraternidade concreta, responsável e alegre, transformando fé em cuidado, proteção e amor por toda a criação. Que a espiritualidade franciscana inspire nossas escolhas, nossas comunidades e nossas políticas, e que cada ato de cuidado com a criação seja, ao mesmo tempo, ato de amor a Deus e aos irmãos.
Referências
BÍBLIA DE JERUSALÉM. Tradução da Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulinas, 2013.
CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2025. São Francisco de Assis e a espiritualidade da criação. Brasília: CNBB, 2025.
FRANCISCO. Laudato Si’. Vaticano: Vaticano, 2015.
JOÃO PAULO II. Fides et Ratio. Vaticano: Vaticano, 1998.
JOÃO PAULO II. Discurso ao Monte Alverne, Assis, 17 out. 1993. Disponível em: https://cffb.org.br/sao-francisco-de-assis-padroeiro-da-ecologia/. Acesso em: 2 out. 2025.
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BENTO XVI. Celebração eucarística em Assis, Assis, 2007. Disponível em: https://franciscanos.org.br/noticias/bento-xvi-fala-de-sao-francisco-e-sao-boaventura.html. Acesso em: 2 out. 2025.
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