DIA DA FAVELA: ENTRE A LUTA, O SONHO E A ESPERANÇA

As favelas nasceram da história que o Brasil muitas vezes preferiu não contar — a história dos que foram libertos, mas não acolhidos; dos que voltaram da guerra, mas não encontraram casa; dos que migraram com esperança e encontraram o improviso como abrigo.

Notícias da Diocese

04.11.2025 - 10:20:00 | 11 minutos de leitura

DIA DA FAVELA: ENTRE A LUTA, O SONHO E A ESPERANÇA

Elas surgiram no final do século XIX, no Rio de Janeiro, impulsionadas por eventos que marcaram profundamente o país, como a Abolição da Escravatura (1888) e a Guerra de Canudos (1896–1897). Após o fim da escravidão, milhares de pessoas negras libertas ficaram sem acesso à terra, ao trabalho e à moradia, sendo empurradas para os cortiços e morros do Rio. Poucos anos depois, soldados que lutaram em Canudos, na Bahia, foram para a capital imperial em busca da casa prometida pelo governo. Como essa promessa não foi cumprida, instalaram-se no Morro da Providência, dando origem ao primeiro assentamento popular do país — e batizando-o com o nome favela, em referência à planta que cobria os morros baianos onde haviam combatido.

 

Com o passar das décadas, as reformas urbanas e o crescimento das cidades empurraram os pobres ainda mais para as periferias. Em 1904, a reurbanização do Rio de Janeiro demoliu cortiços inteiros, forçando famílias a buscarem abrigo nas encostas e margens dos morros. O processo se intensificou entre 1930 e 1950, quando a industrialização e o êxodo rural levaram milhares de trabalhadores do campo às cidades em busca de emprego e melhores condições de vida. Sem políticas públicas de habitação e sem renda suficiente para o aluguel formal, restou a eles construir, com as próprias mãos, suas moradias de madeira e tijolo cru. A partir da década de 1970, o fenômeno da favelização se acelerou, acompanhando o crescimento urbano desordenado e as desigualdades sociais que ainda persistem.

 

 

 

Hoje, segundo o Censo 2022 do IBGE, o Brasil conta com mais de 12,4 mil favelas, distribuídas em 656 municípios, que abrigam cerca de 16,4 milhões de pessoas — o equivalente a 8,1% da população nacional. A maioria dos moradores é jovem e negra: 56,8% se declaram pardos e 16,1% pretos, com idade mediana de 30 anos. As mulheres são ligeiramente maioria, representando 51,7% dos habitantes.

 

Por trás das estatísticas, há histórias de luta e criatividade. A favela é um mosaico de realidades e resistências, onde o improviso se transforma em moradia e a solidariedade se torna estrutura. Mesmo diante da precariedade, a economia local pulsa com força. São 5,2 milhões de empreendedores que movimentam cerca de R$ 300 bilhões por ano. Pequenos comércios, oficinas, salões, lanchonetes e restaurantes sustentam o cotidiano das comunidades e alimentam o sonho de milhões que desejam empreender. Estima-se que 6 milhões de pessoas nas favelas sonham abrir o próprio negócio — um retrato de esperança em meio à desigualdade.

 

A favela é também um território de fé. Em meio às vielas, os templos religiosos se multiplicam, e sua presença é superior à média nacional. Cada culto, cada celebração, cada oração é um ato de resistência. Mesmo com carência de unidades de saúde e serviços públicos, 96,7% dos domicílios contam com coleta de lixo, e há uma rede de apoio comunitário que se reinventa todos os dias. São laços que sustentam o cotidiano e mantêm viva a esperança de dias melhores.

 

O Dia da Favela, celebrado em 4 de novembro, tem um significado profundo. Foi nessa data, em 1900, que o termo “favela” apareceu pela primeira vez em um documento oficial, referindo-se ao Morro da Providência. O nome que nasceu como sinônimo de exclusão tornou-se, com o tempo, um símbolo de identidade e de orgulho cultural. É uma data que convida o país a olhar para esses territórios não como espaços de carência, mas como territórios de vida, cultura, fé e dignidade.

 

 

A Igreja Católica sempre se fez presente entre os pobres e, em momentos marcantes da história, expressou sua proximidade com os moradores das favelas. Em 1980, São João Paulo II visitou a comunidade do Vidigal, no Rio de Janeiro, durante sua primeira viagem ao Brasil. Emocionado, o Papa recordou que “a dignidade do ser humano não depende da condição social, mas do amor que carrega no coração”. Décadas mais tarde, em 2013, o Papa Francisco entrou na comunidade da Varginha, no Complexo de Manguinhos, também no Rio, durante a Jornada Mundial da Juventude. Ele caminhou entre as casas, abençoou crianças, ouviu moradores e afirmou que “ninguém pode permanecer indiferente diante das desigualdades”. Francisco escolheu aquela comunidade como símbolo de todas as favelas brasileiras — e seu gesto se tornou um marco de solidariedade e fé.

 

A Igreja Católica tem uma atuação social significativa e histórica nas favelas e periferias do Brasil, focando na assistência material, na promoção humana e na luta por justiça social e direitos dos marginalizados. A presença da Igreja se concretiza através de diversas pastorais, instituições e projetos que expressam o rosto misericordioso de Cristo nas periferias. A Pastoral de Favelas e da Moradia atua na defesa do direito à moradia digna, combatendo remoções forçadas e promovendo a organização comunitária e a mobilização social. Em muitas comunidades, a assistência material se faz presente por meio das paróquias e grupos de base, que oferecem apoio concreto, como cestas básicas, roupas e abrigos para pessoas em situação de rua. A promoção humana e a educação também ganham destaque, com projetos que incluem creches, escolas, reforço escolar, aulas de música, idiomas e artes, além de orientação jurídica e social. No campo da saúde, as ações da Pastoral da Saúde, da Pastoral da Criança e de casas de recuperação garantem cuidado integral aos mais vulneráveis, promovendo vida e dignidade. Além disso, instituições como a Cáritas Brasileira e a Fundação Leão XIII exercem papel decisivo na promoção social e na defesa dos direitos humanos, tornando visível o compromisso da Igreja com os pobres e com a transformação das realidades de exclusão.

 

Padre Assis Tavares, em favela da Vila Prudente - Foto: Keiny Andrade/UOL

 

A presença da Igreja também se expressa em testemunhos concretos de religiosos e leigos que vivem o Evangelho entre os pobres. Um exemplo marcante é o do Padre Ivaldino de Assis Mendes Tavares, conhecido como Padre Assis, natural de Cabo Verde e integrante da Congregação dos Missionários do Espírito Santo, que atua em comunidades da zona leste de São Paulo. Preto, imigrante africano e com forte inserção social, o padre é conhecido por seu trabalho junto aos moradores de favelas, imigrantes e pessoas privadas de liberdade. Sua missão é marcada pela presença cotidiana e pelo compromisso de estar “do lado dos que sofrem, sem julgar, sem apontar o dedo, apenas estando junto”.

 

Padre Assis celebra missas afro, organiza mutirões solidários e ações emergenciais — como durante a enchente de 2019, quando sua casa tornou-se abrigo para mais de 500 famílias desabrigadas — e atua em quatro favelas da região da Vila Prudente. Ele também mantém diálogo com penitenciárias, apoia imigrantes e promove o Natal das Nações, reunindo povos de diferentes países e culturas.

 

Em suas celebrações, o padre afirma que “meu Cristo tem cabelo crespo, é do povão, caminha com a gente nas quebradas, nas favelas, chora com nóis”, lembrando que o rosto de Cristo se revela nas periferias e nos que sofrem discriminação. Seu trabalho encarna o chamado do Papa Francisco a uma “Igreja em saída”, próxima dos pobres e comprometida com a construção de uma sociedade mais justa. Como ele mesmo diz: “Se somos uma Igreja que serve, então precisamos estar com o povo, no meio do povo, a serviço do povo. Não é assistencialismo, é presença — porque Deus também habita esses becos e vielas.”

 

 Via-Sacra durante uma procissão da Sexta-Feira Santa na favela de Kibera, em Nairóbi, no Quênia - 19/04/2019 (Brian Otieno/AFP) 

 

Desde as décadas de 1950 e 1960, a Igreja na América Latina assumiu o compromisso de fazer opção preferencial pelos pobres, fortalecendo o serviço social e a pastoral urbana. Nos morros cariocas, surgiram Centros de Ações Sociais, espaços de escuta, planejamento e organização popular. Essa missão é expressão concreta da fé cristã: não apenas oferecer caridade, mas promover dignidade, esperança e transformação social, ajudando cada pessoa a ser protagonista de sua própria história.

 

Arte que transforma o exemplo do México

 


 

Em outros lugares do mundo, experiências semelhantes também mostram como a arte e o engajamento comunitário podem transformar realidades marcadas pela violência. Na comunidade de Las Palmitas, na cidade de Pachuca, no México, o coletivo de arte Germen Crew uniu tintas, pincéis e boas ideias para mudar o destino do bairro — antes conhecido por sua criminalidade e exclusão social.

 

Em parceria com o governo local, os artistas desenvolveram um projeto de revitalização urbana que durou 14 meses e contou com a participação dos próprios moradores. No total, 209 casas foram pintadas, cobrindo cerca de 20 mil metros quadrados de muros e fachadas com cores vibrantes e alegres. De longe, o conjunto forma um grande arco-íris que colore o morro e simboliza a esperança de um novo tempo.

 

Mais do que embelezar o espaço, o projeto fortaleceu o senso de comunidade, devolveu o orgulho aos moradores e ajudou a reduzir significativamente os índices de violência na região. A iniciativa tornou-se um exemplo de como a arte pode ser um instrumento de paz, diálogo e inclusão social, valores que também inspiram as ações da Igreja nas periferias.

 

O olhar do mundo também se voltou para as comunidades brasileiras em outros momentos. Michael Jackson imortalizou o Morro Dona Marta em 1996, ao gravar o clipe “They Don’t Care About Us”, dirigido por Spike Lee. Depois dele, Madonna, Will Smith, Beyoncé, Lady Gaga e Antonio Banderas também subiram os morros cariocas, conheceram projetos sociais e se encantaram com a força e a alegria do povo. As favelas, que por tanto tempo foram estigmatizadas, tornaram-se também lugares de cultura, arte e humanidade.

 

Da Mangueira ao Alemão, do Sol Nascente à Rocinha, as favelas são laboratórios de vida. Ali nascem sambas e funks que atravessam fronteiras, poesias que narram resistências e sonhos que driblam o concreto. A música é uma das vozes mais potentes dessas comunidades — de “Rap da Felicidade” a “Meu Nome é Favela” e “Eu Sou Favela”, as canções transformam dor em beleza, denúncia em esperança.

 

Grandes nomes do futebol também brotaram desses becos e vielas: Pelé, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Gabriel Jesus e Richarlison são exemplos de talentos que nasceram na periferia e conquistaram o mundo. Cada gol deles é também um gesto de afirmação de quem aprendeu a sonhar onde quase nada era possível.

 

O Dia da Favela é, portanto, mais do que uma data comemorativa. É um chamado à reflexão e ao reconhecimento. Um lembrete de que o Brasil real pulsa entre becos e vielas, entre a luta e a esperança, entre o improviso e o milagre cotidiano de sobreviver.
Como canta o povo: “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci.”
Que esse canto continue ecoando — não como um pedido distante, mas como um direito concreto de cada cidadão e cidadã deste país.

 

Referências

 

BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Censo Demográfico 2022: Aglomerados Subnormais. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.

 

CÁRITAS BRASILEIRA. Ação social e pastoral nas periferias urbanas. Brasília, DF: Cáritas Brasileira, 2022.

 

CASA VOGUE. Grafiteiros pintam comunidade no México e violência diminui. Casa Vogue Online, 2015. Disponível em: https://casavogue.globo.com/Arquitetura/Cidade/noticia/2015/12/grafiteiros-pintam-comunidade-no-mexico-e-violencia-diminui.html. Acesso em: 3 nov. 2025.

 

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL (CNBB). Diretrizes gerais da ação evangelizadora da Igreja no Brasil 2019–2023. Brasília, DF: Edições CNBB, 2019.

 

FUNDAÇÃO LEÃO XIII. Projetos e relatórios de atuação social nas comunidades. Rio de Janeiro: Arquidiocese do Rio de Janeiro, 2021.

 

INSTITUTO LOCOMOTIVA. Economia das favelas: potência e desafios. São Paulo: DataFavela, 2023.

 

JOÃO PAULO II, Papa. Discurso aos moradores do Vidigal. Rio de Janeiro, 2 jul. 1980. Disponível em: https://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/speeches/1980/july/documents/hf_jp-ii_spe_19800702_vidigal-brasile.html. Acesso em: 3 nov. 2025.

 

FRANCISCO, Papa. Discurso na comunidade de Varginha (Complexo de Manguinhos). Rio de Janeiro, 25 jul. 2013. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2013/july/documents/papa-francesco_20130725_gmg-comunita-varginha.html. Acesso em: 3 nov.

 

 

 

 

 

Fonte Pe. Renan Dantas Jornalista, fotógrafo e padre da Diocese de Juína (MT). Atua na comunicação da Igreja no Brasil e dedica-se à evangelização por meio da palavra, da arte e da imagem.
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