CUIDAR DE QUEM CUIDA: RETIRO DO CLERO DA DIOCESE DE JUÍNA DESTACA VIDA INTERIOR, FRATERNIDADE E CENTRALIDADE DE CRISTO
Entre os dias 23 e 25 de março, a Diocese de Juína realizou o retiro anual do clero, reunindo todos os padres na Casa de Retiro, em Juína (MT).
26.03.2026 - 18:50:00 | 6 minutos de leitura

O encontro foi marcado por silêncio, oração e aprofundamento espiritual, tendo como tema “Cuidar dos cuidadores ao modo de Jesus crucificado”. A iniciativa, organizada pela Coordenação da Pastoral Presbiteral, buscou oferecer aos presbíteros um tempo privilegiado de recolhimento e renovação interior, partindo da consciência de que aqueles que se dedicam ao cuidado do povo de Deus também necessitam cuidar da própria vida espiritual, à luz do amor de Cristo que se entrega na cruz.
Pe. Luiz Antônio Reis Costa, da Arquidiocese de Mariana - Foto: Pe. Renan Dantas - Ascom
A condução das meditações ficou a cargo do Pe. Luiz Antônio Reis Costa, da Arquidiocese de Mariana, doutor em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), que apresentou ao longo dos três dias uma reflexão consistente, articulando teologia, experiência pastoral e leitura concreta da realidade do ministério sacerdotal. Desde o início, o pregador destacou que o cuidado com o sacerdote não pode ser considerado algo secundário, mas uma exigência do próprio ministério. Segundo ele, a qualidade da missão está diretamente ligada à qualidade da vida interior de quem a exerce.
As reflexões avançaram para além dos aspectos espirituais mais imediatos, abordando também realidades muitas vezes silenciadas no cotidiano do clero, como o cansaço emocional, a solidão e as fragilidades acumuladas ao longo do tempo. Nesse contexto, um dos pontos centrais foi a dimensão relacional. “Muitas das nossas tristezas estão enraizadas em problemas de relação — de filiação, de fraternidade e de pertencimento”, afirmou o pregador. A partir dessa constatação, propôs uma mudança de perspectiva: mais do que respostas apenas psicológicas ou estruturais, é necessário reaprender a viver relações verdadeiras.
A reflexão incluiu também a vivência do presbitério. Padre Luiz Antônio alertou para o risco de ele deixar de ser espaço de fraternidade e se tornar apenas uma estrutura funcional. “Muitas vezes sabemos que podemos contar com a família biológica, mas não sabemos se podemos contar com os irmãos de ministério”, observou. Segundo ele, quando essa dimensão se fragiliza, surgem o isolamento e o desgaste. O mesmo pode ocorrer na relação com o bispo, quando perde sua dimensão de paternidade espiritual e se reduz a uma lógica apenas hierárquica.

Como caminho, foi proposta uma verdadeira conversão relacional: aproximar-se, escutar, confiar, partilhar e permitir-se também ser sustentado. “O que sustenta o ministério não é apenas a missão, mas a comunhão”, destacou. Sem essa base, advertiu, a estrutura pastoral se torna pesada demais e o peso recai sobre o indivíduo, gerando desgaste progressivo.
O encerramento das reflexões concentrou-se na centralidade de Cristo na vida sacerdotal. Em tom direto, o pregador alertou para um dos riscos mais silenciosos do ministério: viver como padre sem uma relação viva com Jesus. “Não é a sua força que sustenta o ministério, mas a presença de Cristo em você”, afirmou, recordando que a vida espiritual não exige perfeição, mas abertura à ação de Deus, inclusive na própria fraqueza.





Nesse sentido, indicou lugares concretos de reencontro com Cristo: a confissão, a oração pessoal e a adoração ao Santíssimo Sacramento. Mais do que práticas, são espaços de verdade, onde o sacerdote é chamado a se colocar diante de Deus com autenticidade, não para produzir ou resolver demandas, mas para simplesmente se expor diante do Senhor.
O pregador também chamou atenção para a tendência de substituir o essencial por “bens menores”, o que gera vazio interior, inquietação e, em alguns casos, uma acomodação espiritual progressiva. Diante disso, reforçou a necessidade de retomar continuamente o essencial, reconhecendo inclusive as próprias fragilidades e pedindo a graça da libertação.
A perspectiva apresentada, no entanto, foi marcada pela esperança. A vida espiritual, segundo ele, não se constrói de forma imediata, mas no caminho, em um processo contínuo de conversão, recomeço e cura. A convicção final foi clara: nenhuma situação é maior do que Cristo. Embora existam realidades que superem as forças humanas, nenhuma delas supera o Salvador. O verdadeiro risco, portanto, não está nas dificuldades ou no cansaço, mas no esvaziamento interior provocado por uma vida desconectada dessa presença.
Nesse ponto, o pregador identificou no ativismo uma das principais ameaças à vida sacerdotal contemporânea, por gerar uma falsa sensação de sentido enquanto, silenciosamente, desgasta o interior do ministro. O perigo, segundo ele, não é apenas deixar o ministério, mas permanecer nele sem Cristo no centro.
Padres renovaram suas promessas sacerdotais, Foto: Beatriz Assami - Pascom Diocese de Juína - MT
Santos Óleos na Catedral Diocesana Sagrado Coração de Jesus / Foto: Beatriz Assami - Pascom Diocese de Juína - MT
Como encerramento do retiro, no dia 25 de março foi celebrada a Missa dos Santos Óleos na Catedral Diocesana Sagrado Coração de Jesus, reunindo o clero e o povo de Deus em um dos momentos mais significativos da vida da Igreja particular. A celebração foi presidida pelo bispo diocesano, Dom Neri José Tondello, que, em sua homilia, destacou a importância do presbitério e da unidade entre os sacerdotes, reforçando o valor do ministério vivido em comunhão e fidelidade à missão recebida. Durante a celebração, os padres renovaram suas promessas sacerdotais, reafirmando publicamente o compromisso assumido no dia de sua ordenação, em um gesto que expressa a disposição de continuar servindo ao povo de Deus com fidelidade e renovado ardor missionário.
Ao final do encontro, a Coordenação da Pastoral Presbiteral manifestou gratidão pela realização do retiro e pela participação de todo o clero, destacando o empenho dos sacerdotes e a importância desse tempo como espaço de cuidado, escuta e fortalecimento da comunhão presbiteral. O Pe. Luiz Antônio Reis Costa também expressou seu agradecimento pela acolhida e pela oportunidade de conduzir o retiro. Em sua primeira experiência na Amazônia Legal, destacou a riqueza da Igreja local: “Foi a minha primeira vez na Amazônia, e levo comigo uma profunda admiração. Encontrei aqui uma Igreja viva, missionária, com rosto amazônico, que testemunha o Evangelho com simplicidade e coragem.”
Ao retornarem às suas paróquias, os sacerdotes levam consigo não apenas reflexões, mas um chamado concreto: cuidar da própria vida interior, reconstruir relações verdadeiras e manter Cristo no centro da própria existência. Porque, no fim, permanece a convicção que marcou o retiro: o maior risco não é cair — é viver sem Ele.
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