10 de agosto: celebração da memória de Santa Filomena, virgem e mártir do século IV
10 de agosto: Além da festa em honra do diácono São Lourenço, celebramos também hoje a memória litúrgica de SANTA FILOMENA, virgem e mártir romana do início do século IV, assassinada em defesa da fé durante os anos da sangrenta perseguição ao cristianismo ordenada pelo imperador Diocleciano.
10.08.2026 - 10:09:00 | 13 minutos de leitura

No último dia 06, quando celebramos as memórias dos Santos mártires Justo e Pastor (+304), crianças que mal haviam atingido a idade da razão e que sofreram a morte pela decapitação sob as ordens de Daciano, nos demos conta de que a crueldade humana não conhece limites, nem mesmo os éticos e morais, uma vez que não poupa ninguém, nem por sua idade, por sua classe, gênero ou condição. Na verdade, a estratégia de guerra dos poderosos é tão cruel que não há nome ignominioso em nossos dicionários que lhe seja absolutamente adequado, pois tal maquinação diabólica intenciona deixar claro aos inimigos que não há situação que lhes possa demover o coração para alcançar seus intentos de poder e ganância. Assim, pois, dirão indiretamente os governantes do mundo aos seus inimigos: “se nem a inocência de vossas crianças nos comove, nada mais poderá”... E, por mais que a Igreja, em todos os séculos tenha sido declarada ou veladamente perseguida pelos inimigos do Evangelho, as perseguições dos primeiros séculos do cristianismo talvez sejam as mais conhecidas de todas. Foram tempos muito difíceis para a religião, especialmente até os primeiros anos do século IV, pois o medo da morte e a dor das torturas faziam vacilar os mais fervorosos fiéis, enquanto outros, muitos dentre eles considerados vacilantes no quotidiano, se mantiveram intrépidos diante das ameaças e morreram como Cristo. Alguns, pelos quais muitos de nós não apostaríamos hoje sequer um vintém, foram os mais corajosos, exatamente como um sem-número de crianças, jovens e adolescentes.
Naquele contexto em que a crueldade, o ódio à religião e a mais absoluta baixeza moral dos governantes se misturavam e se confundiam, é que situamos Santa Filomena, uma adolescente de origem romana, que certamente não contava mais que treze anos de idade quando teve seu sangue derramado pelos “filhos do Diabo”, quer dizer, por aqueles que, tendo sido revestidos do poder temporal para reger os homens, confundiram-se entre o respeito que se-lhes deviam os governados e a fugacidade do cargo que temporariamente ocupavam.
Mas o que sabemos de certo sobre esta santa menina em cujo número de devotos encontram-se papas, reis e até outros Santos? Quase absolutamente nada, pois desde seu martírio, ocorrido em torno do ano de 304 da Era Cristã, até a descoberta de suas relíquias, em 24 de maio de 1802, seu nome e seu glorioso testemunho de fé permaneceram sepultos nas catacumbas romanas de Priscila, localizadas na Via Salária. Na ocasião de tão singular descoberta, os operários encontraram um sepulcro intocado, fechado com três placas de pedra, sobre os quais constavam as seguintes inscrições: “LUMENA - PAX TE - CUM FI”. Também alguns símbolos adornavam a sepultura, a saber: uma âncora, duas flechas, uma lança (ou espada), uma palma e um lírio. Dentro do túmulo, aberto apenas no dia seguinte, 25 de maio, um esqueleto feminino, cujos ossos principais encontravam-se em bom estado, jazia glorioso. Dos ossos principais, apenas o crânio apresentava-se bastante danificado pelo tempo. Ao lado do corpo, uma pequena ampola guardava algo que se assemelhava a sangue seco, podendo se tratar também de restos putrefeitos de perfume.
Os símbolos sobre o túmulo – sabiam-no os arqueólogos que trabalhavam nas Catacumbas de Santa Priscila – indicavam se tratar de uma mártir, pois era costume dos cristãos dos primeiros séculos desenhar sobre os sepulcros dos mártires figuras que designassem suas virtudes e que deixassem claro de que morte teriam padecido seu suplício: a âncora, sobre a qual havia uma cruz, indicava a fortaleza de fé da jovem ali sepultada, bem como uma de suas torturas: o afogamento; as setas, uma para baixo e outra para cima, assinalavam que ela havia sido condenada à morte pelas flechas; a lança (ou espada) indicava que, por fim, havia sido decapitada; a palma era e é o símbolo clássico dos que foram mortos em defesa da fé, dos mártires de Cristo; o lírio, por sua vez, indicava sua pureza, ou melhor, sua virgindade.
Quanto aos ossos encontrados, eles examinados por uma comissão formada por médicos, teólogos e paleoarqueólogos, e foram identificados como sendo de uma adolescente, que, como já dissemos, contava mais ou menos os 13 anos de idade na ocasião de seu martírio, ocorrido nos primeiros anos do século IV, coincidindo com os tempos da cruel perseguição de Diocleciano. Analisado o conteúdo da ampola, os médicos identificaram se tratar de sangue seco. Digno de nota: era costume dos cristãos da antiga Roma recolher parte do sangue dos mártires e sepultá-lo junto aos corpos, sangue que era muitas vezes recolhido do chão, junto à terra, com a qual formava, naturalmente, uma espécie de pasta.
Restava, porém, uma dúvida: as três placas que fechavam o lóculos (ou seja, o túmulo) da jovem mártir, não faziam sentido na ordem em que foram encontrados. Porém, ao colocarem por último a primeira placa, a descrição se tornou compreensível: “PAX TE - CUM FI - LUMENA”, ou seja: “A PAZ ESTEJA CONTIGO, FILOMENA”. Talvez pelo fato de a virgem-mártir ter sido sepultada às pressas, ou porque quem a sepultou não sabia ler, as placas acabaram sendo colocadas fora de ordem.
Enfim, tudo o mais que dissermos sobre Santa Filomena advém da história que podemos supor a partir da “invenção” (= da descoberta) de suas relíquias, bem como das revelações místicas da Serva de Deus napolitana Maria Luisa de Jesus (+1875), em cujas visões lhe foi revelado ser Filomena não de berço romano, mas grego, tendo nascido ela na ilha de Corfu, de estirpe nobre. Ela teria sido oferecida em casamento a Diocleciano a fim de que tal união pacificasse as relações conflituosas entre a Grécia e Roma. Mas os pais ignoravam que a filha, desde sua infância, havia consagrado sua virgindade a Cristo, seu esposo místico. Por conseguinte, uma vez enviada à Cidade Eterna e tendo sido apresentada ao imperador, a menina lhe pôs à par de seu juramento ao “Deus dos cristãos”, recusando terminantemente as honras e as riquezas que lhe foram oferecidas. Duplamente enfurecido, tanto pela recusa da jovem em se entregar a ele quanto por se declarar cristã de modo tão convicto, ainda mais sabendo ela dos decretos que ele havia proclamado contra os “sectários” discípulos de Jesus, o magistrado mandou então que fosse amarrada pelo pescoço a uma âncora e lançada no rio Tibre. Deus, porém, cuidou para que Filomena não submergisse, e ela foi arrastada novamente para a margem. Cheio de confusão por este prodígio, Diocleciano então sentenciou-a à morte pelas flechas.
Cabe ressaltar, a morte pelas flechas era uma pena extremamente dolorosa, pois como no caso de São Sebastião (+286), cuja festa celebramos no dia 20 de janeiro, os arqueiros jamais atingiam os órgãos vitais, isto para que a vítima pudesse se contorcer em agonia por longas horas e até dias... Assim, pois, tendo sido atravessada por setas, Filomena foi levada ao cárcere para morrer lentamente. Entretanto, quando no dia seguinte os soldados foram verificar se ela já havia morrido, encontraram-na totalmente curada de suas feridas, entre orações e hinos de louvor a Deus. Quanto a Diocleciano, não se cabendo mais em seu ódio a Cristo e aos seus seguidores, temendo a vitória dos cristãos sobre o trono romano, ele mandou que Filomena fosse decapitada em sua presença. Somente assim a jovem rendeu sua alma a Deus, mesmo porque diante de tão cruel carrasco, Deus não operou nenhum prodígio, como Cristo se eximiu em “atirar pérolas aos porcos” (cf. Mt 7,6; 13,58; Mc 6,5-6).
Como já sabemos, Filomena foi sepultada com honras nas catacumbas de Santa Priscila, e por quase 1500 anos esperou para que sua história fosse revelada a partir da descoberta de seus restos mortais. Deus quis assim, e fê-la como uma pedra preciosa, escondida por um bom tempo, mas encontrada e muito festejada: suas relíquias foram levadas em 1805 para a cidade de Mugnano del Cardinale, na Itália, onde inúmeros milagres começaram a ser operados por sua intercessão, e sua fama de santidade não mais pôde ser contida.
E não apenas a já mencionada serva de Deus Maria Luísa de Jesus encontra-se entre as almas santas que se confiaram particularmente ao patrocínio de Santa Filomena, mas também Madalena Sofia Barat (falecida em 1865 e canonizada em 1925), São Pedro Julião Eymard (cuja festa celebramos há poucos dias, em 02 de agosto), São Pedro Luís Chanel (também ele mártir, assassinado em 1841, em Wallis e Futuna, na Oceania), além de, ninguém menos que São João Maria Vianney, um dos seus mais dedicados propagadores. Destaque merece também a Beata Paulina Maria Jaricot (+1862), leiga francesa e fundadora da “Sociedade para a Propagação da Fé” e da associação “Rosário Vivo”: Paulina encontrava-se muitíssimo doente e estava desenganada pelos médicos: “A doença apresentou-se com grande violência e atacava principalmente o coração”, registrou ela em seu diário espiritual. “As palpitações eram fortes e violentas, podendo ser ouvidas à distância. Qualquer movimento era suficiente para que o sangue se precipitasse no coração, com violência. Nessas ocasiões, sofria verdadeira agonia. Ficava estendida e imóvel. Na parte do peito, onde as palpitações eram violentas, formou-se-me gradualmente uma cavidade, onde se alojavam os alimentos que eu tentava engolir, tornando-se assim um grande perigo de sufocação. Os médicos tentaram diversas punções na ilharga, mas em vão. Era tal a fraqueza que, para mim, a morte era iminente”.
Naquele tempo – corria o ano de 1835 –, Santa Filomena já era muito famosa tanto na Itália quanto na França, e Paulina decidiu se colocar sob sua proteção. Ela prometeu, ademais, fazer uma novena em honra da virgem-mártir e peregrinar até o seu principal santuário, em Mugnano del Cardinale. Como, no entanto, estava muitíssimo fraca, decidiu mudar a rota de sua peregrinação para o santuário de Paray-le-Monial, onde, no século XVII, Jesus havia revelado seu Sagrado Coração a Santa Margarida Maria Alacoque (+1690). Mas, tendo alcançado Paray, convencida de que aquela seria sua última romaria, Paulina teimou em continuar seu trajeto até alcançar Mugnano, isto apesar da veemente oposição dos médicos. De trem, ela cruzou os Alpes, enfrentou o frio e a fome, e depois de vários dias chegou à Itália e à Cidade Eterna de Roma. Quando soube de sua presença ali, o papa Gregório XVI, que muito a estimava, foi pessoalmente abençoá-la. Vendo-a tão decadente e quase no fim da vida, disse-lhe o pontífice: “Lembre-se de mim quando estiveres no céu”, ao que Paulina respondeu: “Assim farei. Mas se eu voltar restabelecida de Mugnano, o Santo Padre me promete apressar o processo de reconhecimento de Santa Filomena?” Gregório concordou, se bem que as condições da fundadora não eram as mais otimistas.
Então, no dia 10 de agosto, dia da festa de Santa Filomena, Paulina Jaricot encontrava-se em Mugnano. Parecia mais morta que viva. Ali ela venerou as relíquias da virgem-mártir e ouviu a Santa Missa, estando bem próxima à urna que conservava as sagradas relíquias de Filomena. Ao receber a comunhão, Paulina foi acometida por uma tão forte crise convulsiva, que os presentes se viram obrigados a levarem-na para fora do recinto. Quando, depois de algum tempo, voltou a si, pediu para ser levada novamente para junto do relicário de sua querida santinha. Ao se aproximar da urna, chorou agradecida, pois todo o mal que ameaçava sua vida havia se extinguido milagrosamente.
Dias depois, passando de novo por Roma, Paulina testemunhou diante do papa as circunstâncias de sua cura, e pediu a ele que cumprisse sua promessa e “canonizasse” Filomena. Gregório XVI, por sua vez, mais que meramente reconhecer a mártir romana como “santa” e aprovar oficialmente o culto a ela, se converteu em seu devoto e um de seus mais renomados propagadores, declarando-a como “grande taumaturga do século XIX” (taumaturga, que quer dizer “milagreira”). Outros papas, dentre os quais o Beato Pio IX (+1878), o Venerável Leão XIII (+1903) e São Pio X (+1974), também se destacam pela particular devoção com que tiveram Santa Filomena Romana.
Apesar de não ter sido incluída no Missal, a festa em honra de Filomena é celebrada com rito próprio aprovado pela Igreja e, desde a recente história da descoberta de suas relíquias, não menos que 19 atos da Santa Sé e pronunciamentos papais confirmaram seu culto... Há, apesar disto, desde o ano de 1904, um sério questionamento envolvendo as relíquias veneradas em Mugnano del Cardinale: há quem afirme que os ossos ali honrados não são de Filomena, mas de outra pessoa; alegam que o fato de as placas que cobriam o lóculos da virgem-mártir estarem fora de posição é um indicativo de que as verdadeiras relíquias ali sepultadas foram transferidas e levadas para uma das igrejas romanas, num tempo desconhecido, e que outra pessoa foi sepultada no lugar, para aproveitar o sepulcro aberto; no intuito de não serem aqueles ossos confundidos com o da legítima Filomena, os coveiros teriam então mudado a ordem das placas, tornando ilegível a inscrição “LUMENA - PAX TE - CUM FI”. Desde 1906, no entanto, um dos mais renomados paleoarqueólogos, J.B.Rossi, publicou sua pesquisa “Controversia sul celeberrimo epitaffio di Santa Filomena, V. e M.”, por meio da qual esclareceu todas as dúvidas em torno das relíquias atribuídas à Santa. Depois, em 1963, outros estudos foram realizados tanto em Roma quanto em Mugano del Cardinale. Todas as conclusões levam a crer que, tal como havia sido publicado em 1802, os restos encontrados nas Catacumbas de Priscila pertenceram, de fato, a uma virgem-mártir de cerca de 13 ou 14 anos de idade assassinada no começo do terceiro século cristão.
Assim, portanto, nós hoje, seguindo os passos de tantos devotos ilustres, veneramos com fervor a memória desta mesma menina-mátir, tão jovem em idade, mas tão madura na fé, que não se deixou persuadir por ameaças nem seduzir pelas riquezas e títulos nobres, tudo para melhor amar, com palavras e ações, Aquele que nos amou primeiro (cf. 1Jo 4,19), que se fez pecado por nós (cf. Is 53,5-12; 2Cor 5,21; Gl 3,13; 1Pd 2,24) e que se entregou na Cruz para que pudéssemos viver (cf. Jo 3,16; 1Jo 4,9): Cristo, nosso Senhor.
OREMOS (do “Próprio” da festa de Santa Filomena): “Nós vos suplicamos, Senhor Deus, que nos concedais o perdão dos nossos pecados pela intercessão de Santa Filomena, virgem e mártir, que foi sempre agradável aos vossos olhos por sua eminente castidade e exercício de todas as virtudes. Isto vos pedimos por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco, na unidade do Espírito Santo. Amém”.
In Corde Iesu et Mariae, semper!
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