“TU ÉS A MINHA ESPERANÇA”: IGREJA NO BRASIL SE MOBILIZA PARA A 9ª JORNADA MUNDIAL DOS POBRES
A Igreja Católica em todo o mundo se prepara para viver, de 9 a 16 de novembro de 2025, a 9ª Jornada Mundial dos Pobres, um dos momentos mais fortes do calendário pastoral instituído pelo Papa Francisco e continuado pelo Papa Leão XIV. Com o tema “Tu és a minha esperança” (Sl 71,5), a edição deste ano reforça a centralidade da esperança cristã como força capaz de sustentar os que sofrem e inspirar a comunidade eclesial a um compromisso mais profundo com os pobres.
14.11.2025 - 14:30:00 | 6 minutos de leitura

No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), através da Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora (Cepast), orienta que a Jornada seja vivida como uma semana inteira de mobilização, e não apenas um dia. A proposta é clara: intensificar a escuta, promover a convivência e transformar a solidariedade em gestos concretos que alcancem quem mais necessita.
Uma esperança que nasce das dores e aponta novos caminhos
Na mensagem oficial para o Dia Mundial dos Pobres, o Papa Leão XIV recorda que a verdadeira esperança não nasce de condições favoráveis, mas justamente nos momentos em que a vida se apresenta mais frágil. O Santo Padre afirma que muitos pobres, mesmo privados de garantias materiais, testemunham uma confiança profunda em Deus e revelam ao mundo que a esperança não decepciona.
Ao mesmo tempo, o Papa alerta para outro tipo de pobreza — mais invisível, porém igualmente grave — que é a falta de cuidado espiritual. Para ele, negar aos pobres o acesso à Palavra, aos sacramentos e à experiência comunitária da fé é uma forma de exclusão tão sofrida quanto a material.
Em um dos trechos mais contundentes, Leão XIV retoma a Doutrina Social da Igreja ao afirmar:
“Ajudar os pobres é uma questão de justiça, muito antes de ser uma questão de caridade.”
O chamado é claro: a Igreja precisa denunciar estruturas injustas, enfrentar as causas profundas da pobreza e cultivar, no cotidiano das comunidades, práticas que tornem visível a esperança de um mundo mais justo.
Material de apoio e experiências transformadoras

Para ajudar dioceses e paróquias a viverem intensamente a Jornada, a Cepast disponibilizou um subsídio pastoral que reúne reflexões, propostas de celebração, sugestões de atividades solidárias e orientações para o pós-Jornada. A intenção é que cada comunidade encontre caminhos próprios para servir, escutar e caminhar ao lado dos que sofrem.
A assessora da Comissão Sociotransformadora, Alessandra Miranda, destaca a importância dessa continuidade:
“Queremos que a Jornada gere frutos que ultrapassem a data. Que nossas comunidades se organizem, celebrem e transformem a realidade junto com os mais pobres.”
Em muitas regiões do país, iniciativas como mutirões de saúde, distribuição de alimentos, visitas missionárias, círculos bíblicos, rodas de conversa, refeições comunitárias e campanhas de promoção humana já se tornaram marcas da Jornada, aproximando Igreja e sociedade.
Os pobres no centro da vida da Igreja
O Papa Leão XIV também recorda que os pobres não são destinatários passivos da pastoral, mas protagonistas capazes de revelar novos horizontes de fé. Suas histórias, lutas e testemunhos apontam para a essência do Evangelho: a opção preferencial pelos mais vulneráveis.
O Santo Padre pede que cada comunidade mantenha viva a inspiração do Ano Jubilar, vendo nos pobres não um problema social a ser resolvido, mas um encontro com o próprio Cristo, que se fez pobre para enriquecer a humanidade com seu amor.
À medida que se aproxima a 9ª Jornada Mundial dos Pobres, a Igreja no Brasil se une ao Papa para renovar o compromisso com aqueles que carregam o peso das desigualdades e das carências históricas. A esperança, tema central da mensagem deste ano, torna-se ponte entre a fé e a transformação social.
O Papa conclui sua mensagem com um convite a rezar com Maria, Consoladora dos aflitos, repetindo as palavras do antigo hino da Igreja:
“Em Vós espero, meu Deus, não serei confundido eternamente.”
A realidade brasileira dialoga com um quadro mundial que permanece desafiador. De acordo com o Índice de Pobreza Multidimensional (IPM) 2024, apoiado pelas Nações Unidas, 1,1 bilhão de pessoas em 112 países vivem em pobreza que ultrapassa a renda e atinge simultaneamente dimensões como saúde, educação e condições de vida. Pelo menos 584 milhões dessas pessoas — mais da metade — são crianças. Enquanto 27,9% das crianças no mundo enfrentam pobreza multidimensional, entre adultos esse percentual cai para 13,5%, revelando a face geracional da desigualdade.
Entre países de língua portuguesa, o contraste é marcante: Angola registra 51,1% da população em pobreza multidimensional; Guiné-Bissau chega a 64,4%; Moçambique, mesmo com avanços recentes, ainda apresenta 60,7% de pessoas privadas simultaneamente em serviços essenciais. No Brasil, o IPM aponta 3,8% da população nessa condição — um número menor, mas que, quando analisado junto aos recortes sociais internos, revela que a desigualdade continua estrutural.
Esse cenário internacional ajuda a iluminar os dados nacionais mais recentes sobre a pobreza. Em 2023, o Brasil registrou a menor taxa de pobreza da série histórica do IBGE: 27,4% da população vivia com rendimento domiciliar per capita abaixo da linha oficial, após uma queda expressiva em relação a 2022. A extrema pobreza também alcançou seu menor nível, passando de 5,9% para 4,4%, ficando pela primeira vez abaixo de 5%. Ao todo, 8,7 milhões de pessoas deixaram a pobreza entre 2022 e 2023, em um movimento influenciado diretamente pelos programas sociais de transferência de renda, especialmente o Bolsa Família.
Mesmo com avanços, as desigualdades persistem. As maiores proporções de pobreza continuam concentradas no Norte e Nordeste, tanto em áreas urbanas quanto no interior. O recorte de gênero e raça também evidencia disparidades profundas: mulheres registram taxa de pobreza de 28,4%, enquanto entre pessoas pretas e pardas os índices ficam entre 30,8% e 35,5%.
No panorama global, o relatório ainda aponta que quase meio bilhão de pessoas pobres vivem em países afetados por conflitos, onde a privação é quase três vezes maior. A falta de saneamento adequado atinge 828 milhões; moradias precárias, 886 milhões; e a ausência de combustível limpo para cozinhar, 998 milhões. A desnutrição impacta 637 milhões de pessoas.
Apesar da gravidade, há sinais de esperança: em 86 países com dados comparáveis, 76 reduziram significativamente a pobreza multidimensional nos últimos anos. O estudo reforça que somente políticas integradas, capazes de articular desenvolvimento econômico, proteção social, educação e saúde, podem romper ciclos históricos de privação — no Brasil e no mundo.
A Jornada Mundial dos Pobres é, mais do que uma data, um chamado concreto para que cada cristão transforme esperança em atitude, fé em serviço e amor em compromisso diário com os irmãos e irmãs que mais sofrem.
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