PAPA LEÃO XIV PROPÕE NOVO OLHAR SOBRE A COMUNICAÇÃO NA ERA DO CLICKBAIT
Tema do 61º Dia Mundial das Comunicações Sociais chama atenção para a forma como a sociedade lida com informação, redes sociais e disputa pela atençã
29.09.2026 - 11:58:00 | 10 minutos de leitura

Foi divulgado, nesta terça-feira (29/09), memória litúrgica dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, o tema escolhido pelo Papa Leão XIV para o 61º Dia Mundial das Comunicações Sociais, celebrado em 2027: “Um novo olhar: ‘prestar atenção’ na era do clickbait”. A escolha coloca em discussão uma realidade presente no cotidiano de quem utiliza a internet. Notícias, vídeos, fotografias e opiniões chegam continuamente às telas, enquanto sites e redes sociais disputam alguns segundos da atenção dos usuários.
Nesse ambiente, o clique passou a ter importância para veículos de comunicação, empresas e produtores de conteúdo. A busca por audiência também modificou a forma de apresentar uma informação e ajudou a popularizar estratégias conhecidas como clickbait.
O que é clickbait?
A expressão clickbait vem da junção das palavras inglesas click, que significa clique, e bait, que significa isca. Em português, é conhecida como “caça-cliques”.
O termo é usado para identificar títulos, imagens ou chamadas elaborados para despertar a curiosidade do leitor e levá-lo a acessar determinado conteúdo. Em algumas situações, a chamada exagera uma informação, omite parte do contexto ou cria uma expectativa que não corresponde ao material publicado. Uma manchete atrativa, por si só, não caracteriza clickbait. O jornalismo precisa chamar a atenção do público e apresentar títulos que despertem interesse. A questão aparece quando o recurso utilizado para conseguir o clique compromete a precisão da informação ou induz o leitor a uma expectativa enganosa.
A discussão ganha importância em um ambiente no qual o desempenho de uma publicação pode ser medido por visualizações, compartilhamentos, comentários e outras formas de interação.
A disputa pela atenção
O Dicastério para a Comunicação relaciona o tema escolhido pelo Papa à chamada economia da atenção. Em meio ao grande volume de conteúdos disponíveis, diferentes plataformas e produtores disputam o interesse do público. A dinâmica não envolve somente os veículos de comunicação. Redes sociais, influenciadores, empresas e usuários produzem diariamente uma quantidade crescente de conteúdos. Para conseguir espaço nesse fluxo, uma publicação precisa chamar a atenção. É nesse cenário que aparecem títulos mais provocativos, imagens selecionadas pelo impacto que podem causar e conteúdos pensados para estimular comentários e compartilhamentos.
O problema surge quando a necessidade de conseguir audiência passa a orientar a maneira como os fatos são apresentados. Para o Dicastério para a Comunicação, a velocidade do ambiente digital também pode afetar a maneira como as pessoas se relacionam. A falta de uma atenção mais cuidadosa pode favorecer reações imediatas, julgamentos rápidos e uma comunicação marcada pela superficialidade. É nesse ponto que a proposta de Leão XIV procura deslocar a discussão: não apenas chamar a atenção, mas prestar atenção.
Quando o like passa a representar reconhecimento
A busca por atenção também aparece na forma como as pessoas utilizam as redes sociais. Curtidas, seguidores, comentários e compartilhamentos passaram a fazer parte da experiência cotidiana de milhões de usuários. Para quem trabalha com produção de conteúdo, esses números podem representar alcance e, em determinados casos, também uma fonte de renda.
A exposição da vida pessoal tornou-se parte desse processo. Viagens, refeições, relacionamentos, conquistas profissionais e momentos familiares podem ser transformados em publicações. Nesse ambiente, construir uma imagem nas redes também significa escolher aquilo que será mostrado.
O problema é que a vida apresentada na internet nem sempre corresponde à experiência completa de quem publica. As dificuldades, inseguranças e frustrações normalmente não recebem o mesmo espaço que as conquistas e os momentos considerados positivos. A procura por reconhecimento nas redes, portanto, pode ultrapassar a simples busca por audiência.
A leitura da psicanálise
O psicanalista Daniel Lima, do GBPSF/SPID, com pós-graduação em Psicanálise e Análise do Contemporâneo e em Psicanálise e Teoria Analítica, aborda justamente essa relação entre hiperconectividade, reconhecimento e solidão.
Em uma reflexão sobre o comportamento na era digital, Lima observa que a quantidade de conexões disponíveis não impede necessariamente que uma pessoa experimente sentimentos de solidão.
Para o psicanalista, a busca por likes pode estar relacionada à necessidade humana de ser visto, reconhecido e validado. Nas redes sociais, entretanto, essa necessidade pode assumir a forma de uma espécie de apresentação pública de si mesmo. A pessoa escolhe fotografias, textos e acontecimentos que deseja compartilhar e constrói, pouco a pouco, uma determinada imagem para os outros.
Na análise de Lima, essa busca por aprovação pode produzir satisfação momentânea, mas não necessariamente responde às experiências mais profundas do indivíduo. A vida real também é formada por fracassos, dúvidas, conflitos e momentos que não costumam aparecer nas redes.
O psicanalista também relaciona a experiência digital às mudanças nos relacionamentos. A facilidade de iniciar ou interromper uma interação por meio de um clique pode influenciar a maneira como algumas pessoas lidam com frustrações, conflitos e vulnerabilidades. A reflexão não significa que as relações virtuais sejam necessariamente superficiais. O ponto levantado é outro: a quantidade de contatos disponíveis nas plataformas não garante, por si só, vínculos profundos. Ter centenas de seguidores não significa necessariamente ter com quem conversar sobre aquilo que realmente importa.
Quando a exposição vira julgamento
A mesma exposição que pode gerar reconhecimento também pode colocar as pessoas diante de críticas e ataques. Os chamados haters representam uma das faces mais agressivas desse ambiente. São usuários que utilizam os espaços de comentários para atacar ou ofender outras pessoas, muitas vezes sem conhecê-las pessoalmente.
Em determinadas situações, uma publicação pode desencadear uma sequência de comentários e compartilhamentos que transforma um acontecimento particular em assunto de grande repercussão.
Um artigo publicado pela Revista Bula utiliza a expressão “tribunal da internet” para discutir esse tipo de comportamento. A análise aborda situações em que uma versão dos fatos é publicada nas redes sociais e rapidamente compartilhada, enquanto usuários passam a julgar os envolvidos sem necessariamente conhecer todos os elementos da situação.
O problema não está em impedir críticas ou denúncias. As redes também podem dar visibilidade a situações que precisam ser conhecidas pela sociedade. A preocupação aparece quando a reação acontece antes da apuração e quando uma pessoa passa a ser condenada publicamente a partir de informações incompletas.
Uma publicação pode mostrar apenas uma parte de uma história. Um vídeo pode apresentar somente alguns segundos de um acontecimento. Uma fotografia pode circular sem contexto. Mesmo assim, o conteúdo pode ser suficiente para provocar milhares de comentários.
A velocidade e o jornalismo
A situação também apresenta um desafio para o jornalismo. A necessidade de publicar rapidamente faz parte da realidade dos meios digitais. Ao mesmo tempo, o trabalho jornalístico exige apuração, verificação e contextualização.
A pressão por velocidade não elimina essas etapas. Antes de publicar uma informação, é necessário verificar sua origem, ouvir os envolvidos quando for possível e avaliar se o conteúdo apresentado corresponde aos fatos conhecidos.
Nesse sentido, o clickbait representa um problema quando a necessidade de gerar acesso interfere no compromisso jornalístico com a informação. Uma manchete pode ser interessante sem ser enganosa. Uma reportagem pode conquistar muitos leitores sem recorrer ao sensacionalismo.
A diferença está na relação estabelecida com o público.
Inteligência artificial muda o ritmo da produção
A inteligência artificial acrescentou outro elemento a essa realidade. Ferramentas de IA já são utilizadas para auxiliar na produção de textos, transcrição de entrevistas, organização de informações, tradução, edição de imagens e outras tarefas.
A tecnologia permite acelerar processos que anteriormente exigiam mais tempo. Isso pode representar uma mudança importante nas rotinas profissionais de jornalistas e comunicadores. Ao mesmo tempo, a velocidade traz novas responsabilidades.
Conteúdos produzidos ou modificados com auxílio de inteligência artificial precisam ser avaliados. Informações incorretas podem ser reproduzidas rapidamente, assim como imagens, áudios ou vídeos capazes de criar uma percepção falsa sobre determinado acontecimento.
O desafio para o jornalismo não está apenas em aprender a utilizar as ferramentas. Também envolve estabelecer critérios para decidir quando e como elas devem ser usadas. A tecnologia pode auxiliar o profissional, mas a responsabilidade pela informação publicada continua sendo humana.
Um novo olhar
É nesse contexto que o tema escolhido por Leão XIV para 2027 ganha significado. Segundo o Dicastério para a Comunicação, a cultura digital criou uma rotina de reações rápidas e pode contribuir para uma comunicação mais superficial. A proposta apresentada pelo Papa é recuperar a atenção como uma forma de relação.
O comunicado afirma que “comunicar não é captar nem vender a atenção, mas guardá-la como um recurso precioso de relação”. A afirmação desloca a discussão do simples alcance de uma publicação para a maneira como o comunicador se relaciona com quem recebe sua mensagem. Prestar atenção significa também olhar para além da primeira impressão. Significa considerar que uma pessoa não pode ser resumida a uma fotografia, a um comentário, a uma manchete ou a alguns segundos de vídeo. Na perspectiva apresentada pelo Dicastério, a atenção também está relacionada à capacidade de escutar e reconhecer o outro.
O desafio para a comunicação da igreja
Para a comunicação da Igreja, o tema apresenta uma reflexão particular. As redes sociais ampliaram as possibilidades de evangelização e permitiram que paróquias, dioceses e comunidades chegassem a pessoas que dificilmente seriam alcançadas pelos meios tradicionais.
Mas estar presente nas plataformas não significa apenas publicar mais. A comunicação pastoral precisa considerar o modo como as pessoas são apresentadas, o cuidado com as informações divulgadas e a responsabilidade diante de situações que envolvem sofrimento, conflitos ou exposição pessoal.
Também existe o desafio de não transformar a evangelização em uma disputa permanente por números. Curtidas e visualizações podem indicar alcance, mas não conseguem medir sozinhas o impacto de uma mensagem na vida de uma pessoa. A comunicação cristã precisa manter aberta a possibilidade do encontro, do diálogo e da escuta.
Uma comunicação que não perca a pessoa de vista
O clickbait, a economia da atenção, os likes, a exposição nas redes, os haters e a inteligência artificial fazem parte de um ambiente digital que mudou profundamente a maneira como as pessoas recebem e compartilham informações.
Cada fenômeno possui suas características e não deve ser tratado como se fosse a mesma coisa. Mas todos ajudam a compreender uma realidade na qual a atenção se tornou um recurso disputado.
A reflexão de Daniel Lima contribui para observar o lado humano dessa transformação, especialmente a busca por reconhecimento e os desafios enfrentados nos relacionamentos. A discussão apresentada pela Revista Bula ajuda a contextualizar o chamado “tribunal da internet” e os julgamentos produzidos a partir da exposição nas redes. Já o Vaticano apresenta, por meio do tema escolhido por Leão XIV, uma perspectiva própria sobre a comunicação e a necessidade de recuperar a atenção como forma de relação.
O desafio colocado aos comunicadores é encontrar equilíbrio nesse ambiente.
É possível utilizar uma boa manchete sem enganar o leitor. É possível utilizar redes sociais sem transformar toda a vida em exposição. É possível utilizar inteligência artificial sem renunciar à responsabilidade profissional.
No fim, a discussão proposta pelo Papa Leão XIV toca uma questão bastante concreta para quem trabalha com comunicação: o que fazemos com a atenção que recebemos?
Em uma época de excesso de informação e de respostas cada vez mais rápidas, talvez seja necessário recuperar o tempo para ouvir, verificar antes de compartilhar e conhecer melhor aquilo que está sendo apresentado.
Para jornalistas, comunicadores e agentes da Igreja, esse pode ser um dos principais desafios colocados para os próximos anos: utilizar as novas ferramentas sem permitir que a busca por audiência faça desaparecer aquilo que deve estar no centro da comunicação a pessoa e a verdade dos fatos.
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