Morte do padre Pedro Ribeiro reacende discussão sobre saúde mental e suicídio entre sacerdotes
A morte do padre Pedro Luís Vilela Ribeiro, 40 anos, ocorrida na quarta-feira (25) dentro do terreno da Paróquia São Jorge, em Curitiba (PR), onde atuava, reacendeu o debate sobre saúde mental dos padres no Brasil. A missa de sétimo dia será celebrada hoje (2) na própria paróquia. Embora a causa da morte não tenha sido oficialmente divulgada, pessoas próximas dizem que o padre deixou uma carta de despedida.
03.03.2026 - 09:20:00 | 5 minutos de leitura

Nas redes sociais, padres de várias regiões do país lamentaram a perda e chamaram atenção para o sofrimento emocional vivido por muitos sacerdotes.
“Infelizmente, mais um irmão no sacerdócio não aguentou o fardo e tirou a própria vida. Rezemos muito por nossos padres”, escreveu o padre Raul Melges dos Santos, de Pederneiras (SP).
“Nestes últimos meses chegam notícias de sacerdotes que tiram a própria vida, as razões são muitas e complexas. Deus cuide de nós, mas também é importante nós sacerdotes cuidarmos uns dos outros”, escreveu o padre Marcos Paulo, CssR. “O próximo pode estar ao nosso lado, no nosso convento, na nossa casa paroquial, na paróquia ao lado. O que se está fazendo? O pastor também precisa ser pastoreado (cuidado, tratado, amado)”.
A Província Brasileira dos Padres Marianos, congregação à qual padre Pedro pertencia, divulgou nota pedindo orações e recordando que o sacerdote havia professado seus primeiros votos em julho de 2025. Natural de Murça, em Portugal, ele já havia atuado em Manoel Ribas (PR) e Turvo (PR).
Doutrina católica sobre suicídio
O padre Lício de Araújo Vale, especialista em suicídio e referência nacional no tema, disse à ACI Digital, que antes do Concílio Vaticano II a Igreja não permitia fazer exéquias para um suicida. O Código de Direito Canônico de 1917 “proibia ritos fúnebres para as pessoas que tinham se matado, porque naquela época se tinha a concepção de que por elas terem se exterminado, havia um pecado contra o quinto mandamento e, portanto, estavam condenadas eternamente. Não matar, era não matar a si mesmo e não matar o outro”, explicou.
“A doutrina católica continua a mesma. O suicídio continua sendo um ato moral grave, sério. Ninguém pode realmente tirar a própria vida, porque atenta contra a própria vontade de Deus. Somos criados por Deus, recebemos o dom da vida desde a concepção até a morte natural”, continuou o padre da diocese de São Miguel Paulista (SP).
“Porém, a nossa igreja, doutrina, dialoga com as ciências e hoje as ciências, tanto a psicologia, como a psiquiatria e a suicidiologia, afirmam que a grande maioria das pessoas que atenta contra a própria vida, não quer matar a sua vida, mas quer matar a sua dor, a sua dor mental, a sua dor emocional, que para aquela pessoa, beira as raias do insuportável”.
“Portanto, se a pessoa quer matar a sua dor e não a sua vida, em tese, ela não tem a intenção de pecar contra o quinto mandamento”, alega o padre. “Para que haja pecado, há que haver intenção, sem intenção, não existe pecado”.
Ele diz que “a grande maioria dos casos, e sobretudo do suicídio de padres e na população em geral, não está ligada ao aspecto moral. Não existe, na grande maioria dos casos, a intenção livre, moral, de pecar contra o quinto mandamento, de desobedecer por vontade própria o quinto mandamento”.
“Por isso, hoje a doutrina católica, no número 2283 do CIC diz textualmente: “Não se deve desesperar da salvação eterna das pessoas que se suicidaram. Deus pode, por caminhos que só Ele conhece, oferecer-lhes a ocasião de um arrependimento salutar. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a própria vida”.
Quem cuida também precisa ser cuidado
Segundo o padre Lício, o sofrimento psíquico entre padres costuma ser silencioso e difícil de perceber. “O suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. Nem sempre o sofrimento psicológico aparece de forma visível, mas ele é muito presente em profissões marcada pelo cuidado constante, que é, por exemplo a nossa missão sacerdotal, missão de cuidado constante com o nosso povo. Por isso, quem cuida, também precisa ser cuidado”.
Segundo ele, os fiéis podem ajudar observando mudanças de comportamento.
“A desmotivação, o isolamento do padre, um certo comportamento depressivo. O povo pode ajudar acolhendo e motivando o padre a se cuidar.”
Padre Lício acompanha as estatísticas sobre o tema e diz que “de agosto de 2016 a fevereiro de 2026, 43 padres católicos morreram por suicídio no Brasil”.
“A depressão não tratada é um dos grandes fatores de risco para o suicídio”, disse. “Não estou dizendo que toda pessoa deprimida chegará ao suicídio, mas é preciso cuidar”.
Embora o número de suicídio entre padres tenha crescido nos últimos anos, ele lembra que a média nacional também aumentou. “A média nacional é de 14,2 suicídios por 100 mil habitantes, enquanto entre padres a média é de 4,3 mortes por ano. A maioria dos casos envolve padres diocesanos”.
Para o especialista em suicídio, é preciso quebrar o tabu e vencer o preconceito com o cuidado da saúde mental. “Esse preconceito existe tanto no nível da sociedade, quanto ao nível do clero. Cuidar da saúde mental, buscar ajuda com profissionais de saúde mental, psicólogos, psiquiatras e mesmo direção espiritual, podem ser fatores importantes para diminuição destas ocorrências”.
Fatores de risco específicos para sacerdotes
“Os três grandes fatores de risco para o suicídio em padres são: o estresse ocupacional, a solidão e a cobrança excessiva de si mesmo”, disse o padre. Ele citou um estudo de 2008 que afirma que “o sacerdócio é uma das profissões mais estressantes do mundo”, marcada por longas jornadas e pouco tempo para descanso ou autocuidado.
“Vivem muito o papel sacerdotal, de entrega da vida aos outros, mas esquecem do descanso, esquecem do autocuidado, que o próprio Jesus vai recomendar a seus discípulos”, disse,
Soma-se a isso a solidão, já que “a grande parte dos padres mora sozinha e tem poucos vínculos afetivos verdadeiros; as pessoas gostam do padre, mas poucos se relacionam com a pessoa do padre. E muitas vezes, também por questões pessoais, pastorais, dificuldade de relacionamento, os próprios padres vão se isolando”.
A pressão constante e cobrança excessiva de si mesmo completa o quadro: “nós nos cobramos muito. O povo cobra. A Igreja cobra. É muita pressão”.
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